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Mulheres na Engenharia de Produção: trajetórias, desafios e conquistas na carreira acadêmica

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Trajetórias que constroem caminhos 

Durante o mês de março, em celebração ao Mês das Mulheres, promovemos uma iniciativa com o objetivo de dar visibilidade às trajetórias das professoras do Departamento de Engenharia de Produção. A proposta partiu do interesse em conhecer melhor seus percursos acadêmicos e profissionais, reunindo relatos sobre formação, escolhas ao longo da carreira, áreas de atuação e desafios vivenciados no ambiente universitário. 

Para isso, convidamos as professoras a compartilharem suas experiências a partir de reflexões sobre sua formação, o processo de entrada no Departamento, a evolução de suas áreas de atuação e os aprendizados construídos ao longo do tempo. Também buscamos ouvir suas percepções sobre os desafios da carreira acadêmica e os conselhos que dariam para estudantes que estão construindo seus próprios caminhos. 

Ao longo dos relatos, é possível observar diferentes trajetórias, marcadas tanto por continuidade quanto por mudanças, além de perspectivas diversas sobre ensino, pesquisa e desenvolvimento profissional. 

A iniciativa foi organizada pelo MAM, um grupo voltado ao fortalecimento da presença feminina no curso de Engenharia de Produção. O MAM atua como um espaço de apoio, troca e desenvolvimento, promovendo discussões e ações que incentivam o protagonismo feminino dentro da universidade. Ao aproximar alunas, professoras e profissionais, o grupo busca contribuir para um ambiente mais acolhedor e atento às diferentes experiências vividas pelas mulheres ao longo de suas trajetórias.

Comitê mulheres ajudam mulheres
Foto do comitê de mulheres (MAM)

Entre escolhas, mudanças e continuidade: as histórias das mulheres do DEP 

Clarissa Fullin 

Eu fiz graduação, mestrado e doutorado no Departamento de Engenharia de Produção da UFSCar. Em 2018, abriu uma vaga no DEP em uma área que eu tinha afinidade. Prestei e passei. Comecei a trabalhar aqui em 2019, para lecionar Estratégia de Produção e Simulação. Com a necessidade do departamento, acabei ficando com a disciplina de Planejamento e Controle da Produção 1 ao invés de simulação. 

“Um dos principais desafios que enfrentei ao optar pela carreira acadêmica foi provar o tempo todo que consegue realizar algo que duvidam que você é capaz. É ter que fortalecer a autoconfiança sempre que precisam “conferir”, pedir uma “segunda opinião” a um homem porque não confiam no que diz ou faz.” 

“Na minha visão, fico muito feliz que hoje temos a iniciativa do MAM dentro do nosso curso de Engenharia de Produção! Acredito que seja extremamente necessária a existência de comitês assim, pois, precisamos dar suporte às nossas estudantes para que elas atinjam todo o seu potencial. Informar, discutir e colocar o assunto em pauta é uma forma poderosa de mudar mentalidades.”
 

Andrea Lago 

Eu sou graduada em Administração, pela UFSC (1990), onde fiz meu mestrado em Engenharia de Produção (conclui em 1993). Essas escolhas me trouxeram para UFSCar por conta da criação do curso de Engenharia de Produção Agroindustrial.  

“Ao longo da minha trajetória no DEP, minha área de atuação mudou muito. Ainda bem! Nunca foi linear, eu deixei de ser uma pesquisadora de Agronegócio, para me tornar referência em Operações e Supply Chain Management, e mais recentemente, me aproximei mais da área de Sustentabilidade. Eu sempre gostei muito de todas as disciplinas que me foram alocadas, mas acho que Gestão de Operações e Serviços, que criei na graduação, e Métodos de Pesquisa Qualitativa na Pós são minhas preferidas, porque tive que aprender do zero.” 

“Se eu voltasse no tempo, eu diria para mim mesma perseguir com mais garra minhas causas e acreditar mais no meu potencial.” 

 

Fabiane Lizarelli 

Eu fiz graduação, mestrado e doutorado no Departamento de Engenharia de Produção da UFSCar. Em 2011 eu passei em um concurso para ser professora efetiva do Departamento. 

“Para uma graduanda que hoje se sente insegura em seguir para o mestrado ou doutorado, eu diria que a carreira acadêmica é uma excelente área também para mulheres. Há cada vez mais pesquisadoras atuando em diferentes áreas, e isso permite construir redes de apoio e compartilhar experiências e desafios comuns. Ainda existem obstáculos, como em muitas outras profissões, mas o ambiente acadêmico é muito estimulante intelectualmente e oferece grande potencial para uma carreira sólida e significativa. Além disso, é muito importante que mais mulheres ocupem esses espaços como pesquisadoras e professoras. Isso não apenas inspira outras mulheres a seguir o mesmo caminho, mas também amplia as perspectivas presentes na pesquisa científica, trazendo olhares e experiências que são fundamentais para o avanço de diversos temas de investigação.”
 

“Ao longo da minha trajetória, eu me acostumei tanto a atuar em ambientes predominantemente masculinos que, muitas vezes, nem percebia claramente os desafios naquele momento. Olhando em retrospectiva, talvez a maior dificuldade tenha sido ser validada e realmente escutada como profissional. No início da carreira, demorei um tempo para encontrar meu lugar, me posicionar com mais segurança e, inclusive, aprender a dizer “não” quando necessário. Outro desafio foi encontrar e construir redes de colaboração com outras pesquisadoras. Ter parceiras mulheres em projetos de pesquisa faz diferença, porque muitas vezes compartilhamos experiências, inseguranças e estratégias para lidar com situações semelhantes. Hoje fico muito feliz em ter desenvolvido redes de colaboração e projetos com outras mulheres, nas quais existe apoio mútuo e troca de experiências.”
 

Rosane L. Chicarelli Alcantara 

Mestrado e doutorado em Administração de Empresas da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV). Fui convidada pelo meu orientador de TCC para prestar o concurso para uma vaga na área de Economia em Análise Econômica e Financeira de Projeto de Empresas Industriais no DEP/UFSCar. 

“A opção pela carreira acadêmica trazia grandes desafios e ao mesmo tempo uma grande oportunidade para meu desenvolvimento profissional que era a realização de mestrado, minha busca inicial e, posteriormente, o doutorado. Essa oportunidade agregava também a possibilidade de cursar universidades fora do Brasil e expandir meu olhar sobre meus objetos de trabalho. Com essa decisão tive oportunidade de morar na Itália, 2 vezes nos EUA e 1 vez na Alemanha, o que acrescentou muito na minha formação como docente, pesquisadora e gestora dentro da UFSCAR. “ 

“Acredito que o maior desafio foi conseguir que minhas opiniões fossem ouvidas. Outro ponto foi conciliar as necessidades de ser mãe e docente/pesquisadora/gestora, que me colocaram em situações que a maioria dos colegas homens não viviam. Por exemplo levar filhos ao médico ou buscar na escola, muitas vezes são tarefas delegadas às mães e, como no meu caso a mãe sou eu, essas tarefas muitas vezes se sobrepunham e nem sempre houve empatia dos colegas em relação a isso. “ 

Ana Torkomian 

Eu cursei Engenharia de Produção no DEP/UFSCar. No mestrado dei continuidade ao tema das pesquisas anteriores e a dissertação relacionada a polos tecnológicos também mereceu premiação como a melhor da FEA/USP no ano de defesa. 
Emendei o doutorado na mesma instituição. Foi quando abriu o concurso no DEP. 

“O conselho que eu daria é: envolvam-se em tudo o que puderem durante a graduação, experimentem! Seja uma iniciação científica, grupos de extensão, projetos sociais ou times de esportes. Não importa. O importante é aproveitar esse tempo para conhecer e ampliar horizontes.” 

“Eu cursei Engenharia de Produção no DEP/UFSCar. Sou da turma de 82. Éramos duas mulheres numa turma de 60 alunos.  Entendo que o MAM é uma excelente iniciativa por vários motivos. Por incrível que pareça as mulheres ainda encontram muitas dificuldades e enfrentam problemas seja no ambiente universitário seja no profissional. Hoje a situação já é muito diferente do que ocorria há 30 anos, mas ainda falta muito para obtermos o equilíbrio almejado e grupos de conscientização e sensibilização podem desempenhar importante papel na trajetória de pessoas sensíveis mas fortes, como nós mulheres.” 

 

Ivete Delai 

Minha graduação de origem foi em Administração assim como toda a minha pós-graduação, mestrado e doutorado. Eu realizei meus cursos de mestrado e doutorado na USP em Ribeirão Preto, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA/RP). Eu vim para o DEP em função de uma vaga de professor para um bloco de disciplinas relacionadas à gestão de operações, que eram Gestão da Cadeia de Suprimentos, Gerenciamento de Projetos e Estratégia de Produção.  

“Para uma graduanda que hoje se sente insegura em seguir para o mestrado ou doutorado, eu diria: escolha um tema que te traga brilho nos olhos e embarque nessa trajetória de muitos aprendizados técnicos e pessoais, de mente aberta para o novo. Vai precisar de esforço e dedicação, mas os benefícios em termos de desenvolvimento pessoal e profissional compensam. “ 

“Voltando para trás, o grande conselho que eu daria seria paciência e perseverança para alcançar os nossos objetivos. Tudo tem seu tempo na vida e os erros são fontes importantes de aprendizado nesse caminho. “
 

Construções ao longo do caminho 

As trajetórias apresentadas revelam não apenas diferentes percursos acadêmicos, mas também experiências que ajudam a compreender o lugar da mulher dentro da universidade. Ao longo dos relatos, aparecem, de formas diversas, desafios relacionados à necessidade de validação profissional, à construção da autoconfiança e à conquista de espaço em ambientes que ainda carregam desigualdades. 

Em alguns momentos, esses desafios surgem de forma direta, como na necessidade constante de provar capacidade ou de ter opiniões reconhecidas. Em outros, aparecem de maneira mais sutil, no processo de se posicionar, ganhar segurança ao longo do tempo ou conciliar diferentes dimensões da vida pessoal e profissional. Mesmo com trajetórias distintas, essas experiências mostram que, muitas vezes, o caminho acadêmico para mulheres envolve mais do que apenas as exigências da carreira. 

Ao mesmo tempo, as falas também apontam caminhos de fortalecimento. A troca entre mulheres, a construção de redes e a existência de espaços como o MAM aparecem como elementos importantes nesse processo, não apenas como apoio, mas como formas de ampliar perspectivas, compartilhar vivências e tornar o ambiente universitário mais acolhedor. 

Outro aspecto que se destaca é a autonomia na construção da própria trajetória. As professoras reforçam, cada uma à sua maneira, a importância de confiar em si mesma, de se posicionar e de seguir aquilo que faz sentido; seja ao explorar novas áreas, ao manter um caminho mais contínuo ou ao redefinir rumos ao longo do tempo. 

Além disso, a presença feminina na academia também se reflete na formação de novas gerações. Ao ocuparem esses espaços, as professoras ampliam referências e contribuem para que mais mulheres se reconheçam como parte desse ambiente. 

As histórias reunidas aqui mostram que a carreira acadêmica se constrói ao longo do tempo, a partir de escolhas, experiências e mudanças. Mais do que isso, reforçam que criar e fortalecer espaços de apoio, escuta e representatividade não é apenas importante; é essencial para que mais mulheres possam ocupar, permanecer e transformar esses espaços. 

 

Escrito por: 

Giovana Ravanini

Em colaboração com Bruna Cadete, Laura Mioto e Laura Palomino e com as professoras do Departamento de Engenharia de Produção (DEP) da UFSCar

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